Coluna: Quando as empresas entram no jornalismo

Algumas marcas precisam criar conteúdo para gerar clientes potenciais porque as notícias podem ser usadas para atrair um público.

A comunicação das atividades de uma empresa está cada vez mais difícil, pois elas competem por espaços limitados, seu público muitas vezes não acompanha ou lê a mídia tradicional, e a complexidade de alguns assuntos faz com que até mesmo jornalistas especializados tenham problemas para cobri-los adequadamente.

Anteriormente, as empresas eram apenas o assunto das notícias, agora também o fazem. A comunicação corporativa passou de comunicado de imprensa e publicações internas (house-organs) para a necessidade de desenvolver portais com conteúdo próprio e a par da mídia convencional.

Hoje, a maioria das empresas tem algum tipo de blog corporativo. Basicamente a ideia é usá-lo ao invés de fazer anúncios; no entanto, eles podem ser limitados em suas capacidades editoriais e insuficientes para determinadas mensagens comerciais e corporativas.

O blog também é uma forma de relações públicas, a mídia pode encontrar uma história em um blog da empresa e depois fazer sua própria versão dela. Às vezes, até, certas empresas são obrigadas a publicar as notícias de seu setor simplesmente porque os principais meios de comunicação cobrem mal ou não cobrem. Essa tendência, longe de ser temporária, certamente continuará a se espalhar devido à profunda crise pela qual passam os meios de comunicação utilizados pelas empresas para divulgar suas mensagens.

A crise editorial dos grandes jornais, como The New York Times, The Guardian ou El País, trouxe vários cortes de pessoal e o mesmo está acontecendo na maioria dos países latino-americanos. Isso é resultado da queda do investimento publicitário, bem como da dificuldade de adaptação ao ambiente digital e da superabundância de informações que ele oferece.

Os poucos jornalistas que permanecem nas redações acabam se concentrando em cobrir as grandes marcas que deveriam ser mais interessantes para a maioria dos leitores; o resultado é um conteúdo menos rico e mais redundante. No setor de tecnologia, por exemplo, a cobertura tradicional se concentra mais na apresentação de gadgets e novos recursos do que nos efeitos e usos da tecnologia em si. É difícil encontrar uma análise das suas possibilidades e impacto a nível individual, social e empresarial.

Algumas marcas precisam criar conteúdo para gerar clientes potenciais, pois notícias são outra forma de conteúdo que pode ser usada para atrair um público que posteriormente opta por contratar seu serviço ou comprar seu produto, enquanto outras produzem notícias como um serviço adicional para seus clientes. Nesse caso não há expectativa de retorno direto do investimento, o objetivo pode ser o conhecimento da marca  com storytelling –narrador de histórias- que ajude a criar uma nova imagem e criar links que possam ser monetizados no futuro.

Historicamente, as publicações baseavam seus negócios na venda de anúncios e no caso do mundo online é a mesma coisa. Portanto, quanto mais tráfego e público você atrair, mais valiosos serão seus anúncios. A maneira mais fácil de atrair visitantes para um site é escrever sobre rumores sobre a Apple ou sobre a nova empresa de mídia social que tem um fundador de 22 anos e um empreendimento avaliado em milhões de dólares.

Os lugares comuns são abundantes em conteúdos ligados à internet e às novas tecnologias; no entanto, prevalece a necessidade de análise e aprofundamento. A desculpa mais comum para não responder é que esses conteúdos são “chatos” e não conseguem captar a atenção dos poucos editores.

Você esperaria que fabricantes de chips como Intel, IBM, Qualcomm e nVidia (empresas que não geram as manchetes que recebem da Apple, Google ou Facebook) liderassem o caminho na criação de sistemas de mídia?. Diante da necessidade de distribuir conteúdos que os promovam, as empresas contratam seus próprios jornalistas. Eles são o recurso que lhes resta para preencher o espaço deixado pela mídia tradicional.

Nos Estados Unidos da década de 1980, a proporção de profissionais de relações públicas em relação aos jornalistas era, nos Estados Unidos, de 1,2 para 1. Três décadas depois, havia quatro profissionais de relações públicas para cada jornalista naquele país. Embora estatísticas semelhantes não sejam conhecidas na América Latina, o número não deve estar muito longe.

A mídia está sobrecarregada, às vezes sem os recursos necessários para a redação, e simplesmente não consegue acompanhar os acontecimentos. Muito para cobrir e poucos jornalistas. 

Autor: MileniumGroup Staff

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